Provavelmente, nenhum artista no Brasil expressou, por meio da pintura, a afirmação do negro e da sua existência mais verdadeira. Sentida na carne e na alma, Josafá Neves aborda a temática da cultura afro-brasileira por meio de uma interpretação astuciosa e genuína, transformando-a numa permanente e inquietante realidade.

A prática da pintura para o artista é de um valor incontestável e efetivo. A sua cor preta atinge as mais íntimas emoções dos expectadores em seus 20 anos de dedicação integral ao ofício das artes. Em Josafá, a atividade artística é motivada pelo exercício habitual da pintura no seu sentido inédito. É no real do trabalho rotineiro, na sua sempre presença em frente às telas, que o artista projeta a sua leitura concreta, sagaz e intransigente da existência.

Nesta amostra “Diáspora”, Josafá Neves força-nos a apreender a afirmação do negro e sua potência resoluta ao pintar ícones da cultura afro-brasileira e dá visibilidade à herança intangível do negro brasileiro. Para o artista, a dispersão dos negros no Brasil, em que pese à perversidade da escravidão e do racismo, o qual até hoje continua silenciado e produzindo consequências à estrutura psíquica das pessoas face os efeitos do preconceito e da discriminação, frutificou uma sumptuosa herança cultural e inúmeras expressões artísticas que passam pela música, literatura, culinária, idéias, dança e artes plásticas.

Por quatro anos, o artista pesquisou o tema da diáspora para selecionar o que ele batiza como os ícones da Diáspora Negra no Brasil. As personalidades negras, o patrimônio imaterial e os símbolos da religiosidade de matriz africana são os que estão presentes nesta exposição de pinturas, gravuras e esculturas.

A sólida pintura retratística de Josafá Neves nesta mostra decompõe o seu próprio sistema de pintar ao embarcar numa multiplicidade de direções. A verossimilhança própria do gênero “retrato” tem seu contorno retirado de imagens mestras das personalidades retratadas, mas são, também, registros da memória do artista em sua relação singular com cada personagem da diáspora. Com cores vibrantes e traços incomparáveis, desenvolvidos ao longo da sua aprendizagem autodidata, o artista expõe um olhar plástico das suas observações apropriadas, inclusive, no instante em que pinta.

A capacidade de Josafá de buscar o mais profundo dos sentimentos daqueles que apreciam a sua obra faz com que percorra inúmeras técnicas em sua prática artística. Assim, nesta amostra, há duas gravuras em ponta seca que simbolizam figuras históricas da diáspora, quais sejam: Grande Otelo e Luiz Gama, que foram obsessivamente fabricadas na mais íntima sensibilidade, misturadas com a energia desassossegada do artista.

A força da pintura do artista, nesta amostra, contínua em dois painéis que exprimem o patrimônio imaterial da cultura negra no Brasil. A obra “Capoeira” traz esta expressão cultural que foi desenvolvida a partir da chegada dos bantos no impiedoso contexto da escravidão. Neste trabalho, o artista profere uma dignidade determinada da capoeira ao conglomerar golpes e movimentos complexos, característicos dessa arte marcial, numa pintura ferina, certeira e cheia de encantamentos. A pintura “Terreiro de Candomblé”, uma releitura da tela “Festa do pilão de Oxalá” do artista Carybé, manifesta o complexo e múltiplo ritual de um culto afro-brasileiro numa amálgama de imagens vigorosas e vívidas.

As duas esculturas dessa exposição “Oxóssi” e “Xangô”, feitas de madeiras sem vida e encontradas no cerrado do Distrito Federal, simbolizam o respeito do artista aos “Orixás”, que, na tradição iorubana, são as forças da natureza que conduzem os seres humanos em suas comunidades. Oxóssi é a divindade que guia os homens na caça e na pesca e, portanto, é o orixá que desbrava os caminhos e remove as dificuldades para o crescimento pessoal. O poderoso Xangô é o orixá do raio e do trovão. Atua na justiça, sendo forte e rei absoluto, gosta dos desafios e é perseverante. Algumas das particularidades de “Oxóssi” e “Xangô” são presenciadas nos sistema prático de pintar do artista: desbravar e perseverar. Cotidianamente, sua aspiração suprema é transmitir nas formas e nas cores testemunhos do seu olhar de forma profunda e bruta, mas não menos, bela e instigante.

O painel afro-indígena é resultado das oficinas realizadas pelo artista com crianças e professores da educação básica de escola pública do Distrito Federal e com estudantes de licenciaturas da Universidade Católica de Brasília. A partir da figura que expressa a diáspora, a qual foi criada pelo artista, os participantes da oficina experimentaram a pintura, após serem trabalhados os conteúdos da diáspora negra. Tal ação produziu uma contribuição à implementação da Lei Federal 10.639/03 que prescreve o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira. Tem-se, logo, uma honradez na arte prática do artista, frente ao seu compromisso com uma educação antirracista. Como resultado, o público se envolverá com um instigante painel que expressa diversidade, identidade, educação e cores, muitas cores.

Esta empreitada do artista Josafá Neves é poesia, é política, é arte brasileira autêntica. Poesia que “voa fora da asa”, como diz Manoel de Barros. Josafá Neves sempre voou fora das asas, em sua solidão aprendiz, vem construindo uma arte indômita, sincera e decidida. É política porque é liberdade, pluralidade, diferença e igualdade. É uma arte com expressão imensa de uma subjetividade criada na labuta diária de um brasileiro afrodescendente.

Lêda Gonçalves de Freitas
(Mestre em Educação. Doutora em Psicologia Social e do Trabalho. Professora e pesquisadora permanente do Programa de Pós em Psicologia da UCB).

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