Além da luz e da sombra

Depois de cinco séculos da Diáspora Negra, um artista negro, ao contrário da dispersão, reúne numa mostra contundente e forte, retratos da redenção de um povo que, junto com os povos indígenas, mais do que cara, deu coração e identidade à nação brasileira: deu-nos alma com arte poética!

Somos recebidos na mostra por um Oxóssi, o orixá senhor das florestas, todo encarnado em madeira de raízes de árvores. A deidade montada sobre estranho bicho incrustado de chifres de boi, é vinda do mundo dos invisíveis. O orixá tem a mão forjada em bronze e como matriz modelar a mão do próprio artista que segura arco e flecha de Oxóssi, seu símbolo e ferramenta que lhe ancora no terreiro e nas oferendas.
Frente a Oxóssi está a grande tela em que Oxalá é reverenciado e amado por seus filhos como a luz solar e a consciência divina firmada no humano. No meio da densidade de cores escuras, Oxalá ilumina e evoca a sabedoria de sua condição anciã de sábio da tribo e no reino dos orixás, o qual pertence ao panteão maior.
A série “navios negreiros” nos toca pela denúncia da condição miserável em que os escravos vindos d’outro lado do Atlântico eram transportados nas galés – quase um milhão, diz-se, morreram na dura travessia – e que se transformam nas pinturas em revoltados, feras, ratos disputando restos, no rastro do esquecer origens que tiveram que fazer ainda em África, contornando as “árvores do esquecimento”, num ritual cruel contra a memória afetiva e ancestral.
A série de retratos, quase anti-retratos, desfilam personagens fundamentais à cultura do Brasil, como Pixinguinha, Milton Santos, Clementina de Jesus, Mãe Stela de Oxóssi, Cartola, Elza Soares, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Nelson Sargento, Itamar Assunção e outros. Quase todos pintados em gestuais de desconstrução, não só do imagético, mas de suas próprias personalidades públicas fixadas pela mitologia das linguagens das mídias.
Os “retratados” são mais do que são. Aparecem também seus lados sombrios em meio ao denso pretume que predomina para realçar o essencial das cores. Suas almas parecem guardar desvelados sofrimentos e mistérios evocados da escravidão até cá.

Josafá mostra mais que o reinado das aparências. Quer mais do que parecenças dos seus personagens vindas da admiração e respeito que sente pelas suas atitudes cidadãs e artísticas. Recria mais que retrata ao tirá-los do mundo das sombras, fazendo saber que eles também têm seus lados sombrios.
Sim, o ser sombrio, o sofrido, o interno, ganha dimensão quase onírica, mítica. Sabe-se que o milagre da redenção negra foi tirar do sofrer cotidiano tanta refinada arte, e em tantosgeniais sambas, uma triste alegria que faz nossos intérpretes do verdadeiro Brasil cantarem sorrindo o que às vezes tem o dom de trágico.
Vejam a poesia e a interpretação sentida, perfeita e precisa de suas composições, como o fazem os mestres Cartola, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues. Suas canções, que nenhum outro intérprete poderia cantar com a mesma propriedade, altivez e sabedoria de suas experiências existenciais. Pois exala verdade e integridade de suas sabedorias e dissabores amorosos que invadiram nosso imaginário para sempre e nos fizeram leais ao que somos e transcendemos.
O extraordinário autorretrato de Josafá transcende, entre o negro e o magenta, com espertas sutilezas cromáticas como a que está em várias outras telas. A obra muda de cor e forma ao descolamento de nossos corpos e incidências de luz, como acontece em outras pinturas – como a de Elza Soares, “carnegra”, que ganha força lúdica no desvelar e velar-se intensamente.

É esta “carnegra” que habita muitas das pinturas, figura e fundo, que se fundem com sabedoria na fartura pictórica, serve de moldura para seres que estão além de si mesmos num mundo mito-poético como a morada dos seus ancestrais africanos. Seres que nunca deixam de ter pertencimento a suas raízes, reconheçam-nas profundas ou não. Não importa de que geração ou mestiçagem em séculos: todos são africanos.
Estas raízes míticas, ancestrais gravitam– no meio da mostra –em torno de um Xangô esculpido em madeira. Uma pilha de energia das pedras e montanhas a qual o orixá personifica. Ele segura seus dois machados duais da justiça e do equilíbrio e vibra sua presença real no sentido também de força e majestade. Muitos destes retratados vieram de casas e estirpes reais de além-mar, para sofrerem a humilhação das perdas. Sabe-se que a escravidão existia entre as cortes africanas e muitos escravos foram vendidos por senhores e reis aos traficantes, e eles mesmos os eram. Também reis e rainhas chegaram aqui escravizados e grandes mães de santo da Bahia eram de linhagem real como Mãe Senhora. Basta ver o porte de nobreza de Mãe Stela de Oxóssi na pintura do artista.
Com todo o lado injusto, aqui do lado aborígene do Atlântico Sul, também foi plantada uma nova civilização que ainda nasce a cada dia imatura e sofrida. Nela ainda habita uma sociedade segregadora e desumana, que da senzala à favela, ainda teima em não subscrever e praticar os ideais abolicionistas.

A “Diáspora” pintada por Josafá Neves nos dá um soco na cara e na alma, e mais do que nos acusar, ela nos instiga, provoca para uma consciência além da negritude, que felizmente nos tinge do melhor do sangue de nossos corpos mestiços e nos faz além de plurais, originais e singulares aos olhos do mundo.
Sua arte nos ilumina como faz Oxalá, que é pai de todos, de brancos, índios, negros, caboclos e reina com compaixão sobre os que podem transmutar o sofrimento em alegria criativa, em uma arte transcendente que vá além da dó e da dor.

Bené Fonteles | Curador, Brasília, 2016
 
Beyond Light and shadow…
 
After five centuries of the Black Diaspora, a black artist, instead of scattering, brings together in a scathing and strong exhibition portraits of the redemption of a people who, together with the indigenous peoples, gave more than a face, a heart and an identity to the Brazilian nation: he gave us a soul with poetic art!

We are received at the exhibition by an Oxóssi, the orixá (deity) lord of the forests, incarnated in wood from the roots of trees. The deity mounted on a strange animal embedded with horns of an ox, comes from the world of the invisible. The orixá has the hands forged in bronze and as a source model the hand of the artist, who holds the bow and arrow of Oxóssi, his symbol and tool that places him in the terreiro (yard) and the offerings.
In front of Oxóssi there is the large canvas where Oxalá is revered and loved by his children as the sunlight and the divine consciousness embroiled in the human condition. Amidst this density of dark colors, Oxalá lightens up and evokes wisdom from his ancient status as a sage of the tribe and in the kingdom of the orixás of which he is a part of the greater pantheon.

The “slave ships” series moves us by denouncing the miserable condition in which slaves from across the Atlantic were transported in the galleys – it is said that almost one million people died on this hard crossing – and which turn into paintings in revolted ones, beasts, rats, fighting for remains, in the wake of forgetting the origins they had to make still in Africa, bypassing the “trees of forgetfulness” in a cruel ritual against the affective and ancient memory.
The series of portraits, almost anti-portraits, displays fundamental characters on the Brazilian culture such as Pixinguinha, Milton Santos, Clementina de Jesus, Mother Stela de Oxóssi, Cartola, Elza Soares, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Nelson Sargento, Itamar Assumpção and others. Almost all were painted in gestures of deconstruction, not only of their imagery, but of their own public personas established by the mythology of the media languages.
The “portrayed” are more than they really are. Their dark sides also appear in the midst of the dense pretume (darkness) that predominates to emphasize the essentials of the colors. Their souls seem to keep unveiled sufferings and mysteries evoked from slavery until the present day.

Josafá shows more than the domain of appearances. He wants more than his characters’ semblances that comes from the admiration and respect he feels in relation to his artistic and civic attitudes. He recreates more than he portrays, by taking them away from the world of the shadows and acknowledging that they also have their own dark sides.
Yes, the dismal being, the suffering one, the inner one, gets an almost dream-like, a mythical dimension. It is known that the miracle of black redemption consisted in drawing from daily suffering so much fine art, and in so many great sambas, a sort of sad joy that makes our interpreters of the real Brazil to sing smiling what sometimes has the gift of tragedy.

See the poetry and the felt, perfect and precise interpretation of his compositions, as do the master composers Cartola, Nelson Cavaquinho and Lupicínio Rodrigues. Their songs, which no other interpreter could sing with the same adequacy, haughtiness and wisdom of their existential experiences. For these songs exude the truth and integrity of their wisdom and love troubles that have forever entered our imagination and made us loyal to who we are and what we transcend.

The awesome self-portrait of Josafá transcends, between black and magenta, with clever chromatic subtleties such as there are in several other canvases. The work changes its color and shape according to the detachment of our bodies and the incidences of light. The same thing happens in other paintings – like the one of Elza Soares: “carnegra” (“black flesh”) that gets a playful force in its intense veiling and unveiling.
It is this “carnegra” that abides in many paintings, figure and background, which merge themselves with wisdom in the pictorial outcome. It also serves as a frame for beings who are beyond themselves, in a mythic-poetic world as the dwelling place of their African ancestors. These are beings who never cease to belong to their roots, identifying them to be deep or not. It does not matter the generation or miscegenation in the centuries: everyone is African.
These mythical, ancient roots gravitate – in the middle of the exhibition – around a Xangô carved in wood. It is a pile of energy from the stones and mountains which the orixá personifies. He holds his two dual axes of justice and balance, and he makes his royal presence felt also in the sense of strength and majesty. Several of these portrayed came from houses and real lineages from across the Atlantic, to suffer the humiliation of losses. It is known that slavery existed among the African courts and that many slaves were sold by lords and kings to the traffickers, who were themselves lords and kings. Kings and queens also arrived here enslaved, and great mães de santos (mothers of saints) from Bahia were of royal lineage as Mother Lady. To acknowledge this it is enough to see the nobility of Mother Stela de Oxóssi as painted by the artist.

With all its unfair side, it was implanted here, on the other also aboriginal side of the South Atlantic, a new civilization that still emerges everyday immature and suffering. In it still dwells a segregating and inhuman society that, from the senzala (slave quarter) to the favela, (slum) still do not subscribe and practice the abolitionist ideals.

The “Diaspora” painted by Josafá Neves punches us in the face and in the soul, and more than accuses us: it inspires us, raises a conscience beyond negritude (blackness), which fortunately better dyes the blood of our mixed-race bodies, and makes us plural, original and unique to the eyes of the world.
His art enlightens us as does Oxalá, who is the father of all people, whites, indigenous, blacks, caboclos, and reigns in compassion over those who can transform suffering into creative joy and into a transcendent art that goes beyond pity and pain.

Bené Fonteles | Curatorship, Brasília, 2016

DIÁSPORA

Exposição de Josafá Neves e curadoria de Bené Fonteles

 

Caixa Cultural São Paulo

A partir de 06 de outubro de 2018